Bem-te-vi

O dia amanheceu lindo! Céu azul, quase sem nuvens. Abri a janela e um belo cantarolar de bem-te-vi  junto a um sol ainda não tão forte – que queimava levemente meu rosto – me deram um “Bom dia!”. Mesmo sentindo o gostoso aroma do ambiente – que me permitia sorver a brisa e o leve calor -, foi o  bem-te-vi que me trouxe o gosto diferente. Foi o açúcar para o meu café… 

Com a penugem eriçada e com o papo pra cima, o pássaro transmitia uma atitude quase autoritária, mas que carregava algo bom em si. Passei a observá-lo melhor. No pico daquela antena, com o olhar altivo e uma postura imperiosa, o pássaro aspirava o ar e alçava o canto: “Bem-te-vi!”. Após o belo ato, imediatamente o belo amarelo e preto daquela penugem brilhante se curvaria, como que houvesse dado um louvor ou mesmo uma grande saudação a alguém muito importante. A atitude naturalmente o convidava a curvar-se a uma majestosa personalidade. Diria que se ele pudesse ajoelhar-se, certamente teria feito.

Entendi. Pensei: Olhar pra cima, cantar e logo depois prostrar-se, quem sabe ajoelhar-se…

Entendi…

No início ainda ousei achar que o canto fosse pra mim. Foi muito bonito, quase direcionado. Mas ao observar atentamente todo o processo do canto daquele pássaro, entendi. O seu canto era para o seu criador. – Como criador? – perguntaria você. – Um pássaro livre, no alto daquela antena, teria um criador? – insistiria você. – Sim – Digo eu. O canto foi de gratidão. O Deus que o criou, cuida dele e o deixa livre. Ele pode voar por onde for, mas sabe que o Deus que o criou não lhe permite faltar nada. Nada. E o que ele faz como retribuição a este Deus criador, cuidadoso? Canta-lhe forte e alto um belo pronunciamento de louvor: “Bem-te-vi”. Gratidão, simplesmente.

Onde estou eu nesta situação? Não seria eu a imagem e semelhança do mesmo criador do tal pássaro? Não seria eu ainda mais importante que o belo Bem-te-vi? Bom, eu não via. Veria que minhas preocupações não me acrescentariam dois centímetros a minha altura. Veria que mesmo com as responsabilidades que tenho, teria que descansar. Veria que o belo dia e que a criação de Deus – perante mim naquela janela – estavam me convidando a louvar o meu criador, meu Pai. Veria que não tenho forças suficientes em mim. Não sou tão capaz quanto muitas vezes acho. Veria que preciso de Deus, do meu Senhor.

O dia foi melhor do que já seria. Saí para trabalhar, cantando e me prostrando…reconhecendo que o meu Senhor cuida de tudo para mim. Foi bom ter ouvido aquele canto. Foi bom ter andado com Deus –  livre e sem preocupações – naquele dia. Foi bom ter aberto aquela janela.

Lebre de Março

“Loucos como uma lebre de Março” – já dizia a velha expressão inglesa que originou o personagem “Lebre de Março” de Lewis Carroll no fantástico “Alice no país das maravilhas”. Interessante, que coincidentemente estamos em Março. Neste período, na Europa, a chegada da primavera celebra o período de acasalamento das lebres. Daí a loucura, no caso, a tara. É o Equinócio. A propósito, li o livro recentemente, diante de uma desafiadora palestra sobre liderança que tive que fazer em minha empresa. Gostei muitíssimo, do livro e do resultado da palestra. Do livro, daquilo que guardei, ficou muito marcada em minha memória o diálogo entre Alice e o Gato de Cheshire – o gato risonho – mais precisamente no capítulo 6. Desde criança, sempre fui levado pelos desenhos, pela fantasia da imagem, e quase nunca ao livro. Só que, quando descobri o livro, passei a preferi-lo antes da imagem, dos filmes. Hoje, o livro vem primeiro na ordem. Me faz viajar muito mais, pois a imaginação não está pronta, como no filme…pois quem faz a imagem sou eu – do meu jeito e de diversas formas. Esse é o barato da leitura.

Quem não lembra do Gato? Creio que todos lembram. O Gato surge só pela metade, só a cabeça, desaparece aos poucos em cima da árvore…estas são as lembranças. Até que some todo e finalmente temos só o sorriso, a imagem clássica! No livro, de repente, Alice se vê em um dilema e encontra-se com o Gato. É iniciado um diálogo. Ela pergunta: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”. Responde o Gato: “Isso depende bastante de onde você quer chegar”. E Alice: “O lugar não importa muito…”. Finaliza o Gato de Cheshire: “Então, não importa que caminho você vai tomar”.

O diálogo conta de forma bem elegante o fosso que existe entre o “deixa a vida me levar” e o “determinar aonde se quer chegar”. E o reflexo disso, está em nossa sociedade, em nossos ambientes, no nosso dia-a-dia. Somos nós no espelho. O que nos dizem, aceitamos. Até porque não sabemos onde queremos chegar. “Vou com a massa, tô nem aí, seja o que deus quiser…”, passam a ser os ditames das nossas consciências. Que triste.

Os homens e os seus círculos, refletem a sociedade em que estão inseridos. O mundo não mudou, quem mudou foram os homens, sobretudo suas concupiscências. Honestidade, respeito, educação, passaram a ser exceção; quando deveriam ser regra. Que absurdo! Mas estamos aqui, e temos que conviver com tudo isso que nos cerca. Para a massa, o lugar onde se quer chegar não importa muito. Quem está do lado, não importa. À massa, importa se travestir de alguma “persona” e mudar de nome, e, se possível, importunar os outros, escondido por detrás de uma máscara, ou de um “nick”.

Quão desafiador é viver nos dias de hoje. E continuar, ainda mais. Mas recomendo a todos um chá, lembrando do Chapeleiro Maluco e da Lebre de Março. Finalizo com o resultado do diálogo entre Alice e o Gato. O Gato diz: “Nesta direção, mora um chapeleiro. E nesta outra, uma lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos”. Alice responde: “Mais eu não ando com loucos”. O Gato diz: “Oh, você não tem como evitar, somos todos loucos, inclusive você”. “Como é que você sabe que eu sou louca?, disse Alice. O Gato finaliza: “Você deve ser, senão não teria vindo para cá”.

Não há o que reclamar. Estamos em um mundo louco. Se o homem o tornou assim, a mim não importa. Fujo da loucura determinando o lugar onde quero chegar. Te convido a vir comigo.

Abraços.

Pandora

Ê Pandora…

E alguns não se contentam em mantê-la fechada. Quando abrem, já não dá pra segurar, e os males não podem ser desfeitos. Pensamos assim, e achamos que tudo está perdido. Mas o resquício, único, da caixa, é a esperança. Não foi à toa que ela foi a única sobra . Com tantos males na vida, tantos dilemas, o que fica no final é a esperança: o motivo maior do recomeçar.

Muita coisa ainda vai se desenrolar. Os grapevines estão à solta! O que virá então? São cenas de um próximo capítulo. Mas não são em si importantes. Quero, quero muito. Quero altruísmo no lugar de egoísmo. Quero amar e me desviar do que saiu da Pandora. Ê vida de desvios…

Sobrou a Esperança. Percebi que estava no fundo da tal caixa. De mãos dadas sigo então, eu e a certeza das coisas que não vejo. Pra quê temer então? Sendo assim, é hora de recomeçar.

 

Pesados grãos

Ás vezes olho o interior desabando…

Desabafo de um dia corrido e de incompreensões minhas…

Não deixando passar aquele grão, que insiste em me engasgar…

Busco água que me ensine a molhar meu teimar em ser perfeito…

Pra quê em insistir nessas pequenas que eu trato de tornar grandes?

Diante dessas levanto meu coração e crio forças…

Deixando para trás, deixo passar…

Assim sigo leve…livremente fluido…

Encontro o sorriso e pego em sua mão…

Caminho agora, sim, deixando esses grãos que eu trato de tornar pesado…

Quando eles não são.

Encontrei o Salvador

Na minha sede de preenchimento encontrei o vazio…

O copo enchia ao meio e nada

Mentiram pra mim…

Venderam-me verdade incompleta

Negócio sem chão…

Parede sem coluna

Num sopro desabou

Mas foi um relance iluminado

Numa visitação meu coração Te viu

Sem pedido de troca, abnegado

Verdadeiro deu dado…

Um amor que nunca se viu

Agora transborda o sorriso

Derrama, encharcando a dor

Encontrei a verdadeira vida

Encontrei o Salvador.

Basta um pouco

Me rendo ao seu olhar…

De pronto, saio do meu adulto e entro na minha criança

E atendo a este chamado invisível para brincar de rotina

Tudo sempre igual pois o meu dia é assim

Rotina…

Absorve tudo o que sou e me completa a alegria…

Me lambe, me cheira, me pede…

Pede um pouquinho de mim, pois um pouco é suficiente…

Para me mostrar que não precisa de muito…

De muita coisa para ser feliz…

Basta um pouco

Basta 1 minuto de mim

 

Mascarados

Mascarados …

Arte de atuar dos homens

Externo rosto palhaço

Eternos sepulcros caiados

 

Alegria  iludida…

Fingimento contente

Caminham e mentem

Promovendo a desfaçatez

 

Ausentes de naturalidade

Hipocrisia reluzente

Afetação borbulhante

Dissimulando o descaramento.

 

Amantes do maneirismo

Naturalidade nada

Estereotipo pirata

Capa, aparência..

 

Motivos interesseiros

Medo de assumir

Não são eles mesmos

Preferem ser desse jeito.

 

Mas cai a máscara

Pela simples auto-proclamação

Não sabem que são árvores

E que delas frutos aparecerão.

 

E que não há nada oculto

Que não seja revelado

Enganam a si e aos outros

Mas a Deus não.

 

Alberto, 21:45, 03/01/11